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13/03/2026

Oscar 2026: o cinema brasileiro que transforma vidas longe do tapete vermelho

Quem vê a mobilização da torcida brasileira em torno da cerimônia do Oscar, que acontece no próximo domingo – com “O Agente Secreto” concorrendo em quatro categorias e super em alta pelo mundo – pode dizer que o cinema nacional está trazendo impacto social como nunca antes. É claro que esse movimento é poderoso, ainda mais se falamos de um filme que aborda a questão da memória e a perseguição política sofrida por gente comum durante o período da Ditadura Militar Brasileira.

Mas, em um país onde só 10% das cidades têm salas de cinema (segundo o IBGE, em 2019), o setor de impacto social no cinema vai muito além de mobilizar conversas necessárias. Há anos, produtoras nacionais usam as telas para mudar a realidade e incluir pessoas historicamente excluídas em suas atividades. São empresas e instituições que entendem o cinema não apenas como arte ou negócio, mas como ferramenta de transformação.

Conheça três das principais referências desse setor no país.

Maria Farinha Filmes

Com mais de 18 anos de história e um portfólio de mais de 50 produções, a Maria Farinha Filmes é considerada uma das principais empresas de entretenimento de impacto social na América Latina. A produtora construiu sua trajetória sobre uma premissa aparentemente simples, mas difícil de executar em escala: é possível fazer conteúdo que emocione grandes audiências e que, ao mesmo tempo, conscientize para temas urgentes.

No portfólio, por exemplo, está a série “Aruanas”, exibida pela Globoplay. A produção aborda a crise ambiental e valores éticos de forma narrativa e envolvente — e chegou a ser assistida por 35 milhões de pessoas por episódio. 

Cena de Aruanas, série do Globo Play produzida pela MAria Farinha Filmes

Cena de Aruanas, série do Globoplay produzida pela Maria Farinha Filmes. Foto: Divulgação/Globoplay

O mesmo espírito guia a franquia documental “O Começo da Vida”, lançada pela Netflix, que gerou um movimento com mais de 100 parceiros ao redor do mundo ao discutir o desenvolvimento na primeira infância. Outras produções da Maria Farinha incluem “O Futuro é Ancestral” — um encontro musical entre o DJ Alok e artistas de oito comunidades indígenas brasileiras —, “Esperanza”, série de aventura com elenco multicultural abordando dilemas universais, “Segura Essa Pose”, voltada à celebração de jovens LGBTQIAPN+, pretos e periféricos por meio de batalhas artísticas, e “Quantos Dias. Quantas Noites”, uma reflexão sobre longevidade e o que fazemos com o tempo que temos. 

Em 2024, a produtora deu mais um passo em sua expansão ao criar a MFF & CO em Los Angeles, levando o modelo de entretenimento de impacto para o mercado internacional.

Cinema Nosso

O Cinema Nosso nasceu no Rio de Janeiro a partir da experiência do filme “Cidade de Deus”, no início dos anos 2000. O longa, que chocou e revelou a muita gente a realidade de uma favela no Rio, fez também surgir a pergunta: e se os jovens dessas comunidades tivessem câmeras na mão, como o protagonista do filme. 

Fundada com a missão de reduzir desigualdades sociais por meio da tecnologia e do audiovisual, a instituição funciona como uma “produtora-escola” — e é reconhecida como uma das maiores escolas populares de audiovisual da América Latina. Em mais de duas décadas, o Cinema Nosso impactou mais de 30 mil jovens.

O diferencial da instituição está em sua metodologia. O Cinema Nosso aplica o modelo STEAM — que integra Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática — na formação de jovens de territórios periféricos. O aprendizado é construído a partir da resolução de desafios práticos, em equipe, com abordagem “mão na massa”. O resultado não é apenas um profissional qualificado para o mercado audiovisual: é uma pessoa com ferramentas para compreender e narrar o próprio mundo. 

A instituição atua em áreas que vão do cinema clássico à realidade virtual e aos games, e mantém iniciativas como o Festival SUPER HACKA KIDS e o LAB CN, que formam comunicadores e multiplicadores em cultura digital.

Instituto Criar

Fundado em 2003 em São Paulo, o Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias foca no desenvolvimento profissional e sociocultural de jovens entre 17 e 20 anos em situação de vulnerabilidade econômica.

A cada ano, o Instituto Criar oferece formação para cerca de 125 jovens. O objetivo é duplo: prepará-los tecnicamente para ingressar no mercado de trabalho audiovisual e incentivá-los a utilizar as ferramentas da mídia como instrumentos de transformação social e exercício da cidadania.

Foto mostra grupo de mais ou menos 100 pessoas em sala escura, que parece ser de cinema. No fundo, um telão onde se lê "Encontro de Famílias"

Encontro de Famílias e Rede de Apoio do Instituto Criar. Foto: Instituto Criar/LinkedIn

A lógica do Instituto parte de uma crença que também guia outras organizações desse ecossistema: quem aprende a contar histórias aprende, antes de tudo, a ocupar um espaço. E ocupar espaço, para jovens que historicamente excluídos das narrativas dominantes, é em si um ato político.

O poder dos cineclubes

O sucesso de “O Agente Secreto” no cenário internacional é motivo de celebração — e de reflexão. Ele demonstra que o cinema brasileiro tem maturidade narrativa e coragem temática para dialogar com o mundo. Mas o impacto simbólico de uma indicação ao Oscar, por mais poderoso que seja, acontece em uma esfera distante da vida cotidiana de milhões de brasileiros.

A experiência do cinema, de ir assistir à projeção de um filme em um espaço coletivo, ainda é relativamente restrita no Brasil. Segundo o Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC), pesquisa do IBGE que reúne dados sobre acesso à cultura, só 57% da população tem acesso a salas de cinemas no seu próprio município. De acordo com a pesquisa “Hábitos Culturais 2024”, menos de 40% dos brasileiros que listam ir ao cinema como suas atividades presenciais recorrentes de fato foi assistir a um filme pelo menos uma vez nos 12 meses anteriores. 

É justamente no acesso que entram as organizações voltadas para o impacto social no cinema. Longe do tapete vermelho, elas focam na formação humana, inclusão produtiva e democratização das vozes.

Conheça alguns cineclubes: 

  • Cine Carimã (MA): atua na comunidade de Raposa, na ilha de São Luís, ligado ao Instituto Maranhão Sustentável; exibe filmes para crianças e moradores, aproximando públicos de todas as idades do cinema brasileiro por meio de exibições de filmes, rodas de conversa, mostras e oficinas de produção audiovisual, entendendo o cinema como ferramenta de formação crítica e transformação social. 
  • Cineclube Subúrbio em Transe (RJ):  Criado em 2007 com alunos turmas de criação audiovisual do Núcleo de Arte da Escola Municipal Grécia, com a intenção de exibir as produções da oficina para seus próprios familiares. Atualmente, o cineclube faz sessões em arenas culturais da Zona Norte do Rio. 
  • Canella Cineclube (Canela, RS): realiza sessões ao ar livre com “telona” inflável na cidade. Tem uma parceria com a aldeia Kaingang Kógūnh Mag (RS) para a exibição e a produção de filmes como o documentário “Fuá – o sonho” (2025) e o curta “A araucária e a gralha azul” (2023), com protagonismo de mulheres e realizadoras indígenas Kaingang.​
  • Cineclube CinemAqui (Baixo Guandu, ES): é um projeto cultural localizado em Baixo Guandu, no Espírito Santo, dedicado à exibição de filmes independentes, mostras temáticas e ações cineclubistas. Participou da 3ª Mostra Cinemas do Brasil em 2023, exibindo filmes sobre cinemas de rua e personagens do cinema em formato presencial.​Foca em cinema comunitário, promovendo acesso gratuito ou acessível a produções nacionais e internacionais fora do circuito comercial.

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